Comer ou Nutrir? Nutricao Clinica Individualizada

Nutrição em Fatos: COMER ou NUTRIR? 

Como chegamos aqui?

O ato de comer – ingerir algum alimento, levando à boca e engolindo –  durante a evolução da espécie humana, foi sendo associado, cada vez mais, a um evento social, maior ou menor, tão ou mais importe que sua função primordial, a de nutrir – fornecer alimento, alimentar, sustentar.

Em Comida como Cultura(1), podemos ler que “o uso do fogo e as práticas de cozinha servem para tornar ‘melhores’ os alimentos não somente do ponto de vista do sabor, mas também da segurança e da saúde. […] Esse gesto simples teve seguramente, desde o início, o objetivo de tornar a comida mais higiênica, além demais saborosa […]”. Observamos que além do aumento da diversidade de sabores, na evolução da humana a alimentação está associada, cada vez mais, a socialização, inserção em  comunidade, festa, turismo gastronômico entre outros. 

Assim, entendemos que o vínculo entre o Homem e o alimento tornou-se ainda mais forte a partir da descoberta do fogo, que acrescentou sabores e texturas diferentes ao que se consumia. A partir também do momento em que adquirimos o conhecimento sobre plantio de grãos, hortaliças e frutas, a criatividade humana contribuiu para o desenvolvimento da atividade culinária e da cultura alimentar. Já se percebia, então, que o alimento, além de saciar a fome, também era uma preciosa fonte de prazer, convívio social, dando origem às diversas culturas culinárias mundo a fora.

Na cozinha eram transmitidas as experiências dos mais velhos, na mesa eram contadas as histórias familiares. Eram! Cada vez mais, valorizamos os hábitos de nossos antepassados, porém os executamos cada vez menos. Observar esta mudança cultural, mesmo sabendo da importância das refeições em torno da mesa, para a alimentação saudável, nutritiva e estímulo ao convívio social é no mínimo intrigante. Como podemos valorizar um costume e direcionar nossos hábitos para um comportamento totalmente divergente?

Um dos fatores que influencia bastante a saúde é a alimentação. Culinária deve unir saúde e prazer. Devemos sempre nos lembrar que o objetivo fundamental do ato de se alimentar é nutrir o seu corpo. E estamos fazendo isso?

Com o enorme conhecimento que hoje temos sobre a qualidade nutricional dos ingredientes, sobre as quantidades diárias de vitaminas e nutrientes que nosso organismo exige para se manter, sobre os benefícios que cada alimento pode nos oferecer, o entendimento sobre as técnicas de segurança e conservação de alimentos seria, no mínimo coerente, fazer com que o ato de comer fosse fonte segura de saúde e nutrição.

Atualmente, 55,7% da população adulta do Brasil está com excesso de peso e 19,8% está obesa(2). Isso em implica na seguinte informação, ou reflexão para você, leitor; na sua vida adulta, seja ela hoje ou futura, existe uma maior probabilidade de você ou o seu cônjuge estarem acima do peso.  Além da obesidade, os dados mostram ainda que 7,7% da população adulta apresenta diabetes e 24,7%, hipertensão – doenças que podem estar  intimamente relacionadas à obesidade. A Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), de 2013, indica que dentre os adultos com diabetes, 75,2% têm excesso de peso e, entre os adultos com hipertensão, 74,4% têm excesso de peso.

Na contramão do aumento dos percentuais de obesidade e excesso de peso, o consumo regular de frutas e hortaliças cresceu 15,5% entre 2008 e 2018. A prática de atividade física no tempo livre também aumentou 25,7% (2009 a 2018), assim como o consumo de refrigerantes e bebidas açucaradas caiu 53,4% (de 2007 a 2018), entre os adultos das capitais(3)

Como podemos estar comendo mais frutas, mais hortaliças e praticando mais atividades físicas que “nunca” e os índices de obesidade continuarem aumentando? A resposta é simples, estando sendo mal orientados pelos profissionais da saúde e influenciados de maneira equivocada, talvez patrocinada, pelos meios de comunicação. Outra conclusão não muito difícil é que, para a perda de peso, o exercício físico parece não apresentar grande influência. A falha de pensamento neste caso é acreditar que o gasto calórico induzido pelo exercício não será inconscientemente compensado pelo aumento da ingesta alimentar. Seria como supor que, após suar bastante, não haveria um aumento da sede. Sabemos que o exercício moderado queima uma quantidade irrisória de calorias. É necessário subir 20 lances de escada para queimar as calorias de uma fatia de pão. E o que garante que uma pessoa que decida subir 20 lances de escada todos os dias, não vá sofrer um leve aumento de sua fome, equivalente a uma fatia a mais de pão em 24 horas? Conversaremos sobre exercícios e perda de peso nos capítulos subsequentes.

Quando observamos a pirâmide alimentar divulgada pelos órgãos de saúde recomendando cereais, arroz, macarrão, pães como principal fonte de nutrição, associado a restrição a carnes e alimentos de origem animal, fica fácil entender como chegamos aonde estamos. As altas e frequentes recomendações para aumento do consumo de folhas, frutas e grãos, mesmo com todo conhecimento científico  mostrando que estes alimentos não promovem nutrição e tampouco saciedade, fazem com que as pessoas demandem cada vez mais, maiores quantidades de alimentos além um maior número de refeições diárias. Isso faz com que a ingestão calórica exceda em muitas vezes superiores a ingestão de proteínas (nutrientes), abrindo caminho para a obesidade e suas complicações. 

Já não é novidade, e também conhecido pelas populações mais antigas, que os alimentos de origem animal como carnes (magras ou gordas), ovos, bacon, banha, queijos, não são os responsáveis pela obesidade e/ou diabetes(4). Inclusive, o consumo destes alimentos melhoram as taxas gordura no sangue e parecem promover um efeito protetor no sistema cardiovascular, conceito totalmente contrário ao que pensa grande parte da população e até muitos profissionais da saúde(5).

Somente entendendo e conscientizando sobre nossos erros pregressos poderemos caminhar em direção a um futuro onde comer será menos importante nutrir.

Referências Bibliográficas:

  1. MONTANARI, Massimo. Comida como Cultura. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2008.
  2. https://www.saude.gov.br/noticias/agencia-saude/46485-mais-da-metade-dos-brasileiros-esta-acima-do-peso.
  3. https://www.saude.gov.br/noticias/agencia-saude/45612-brasileiros-atingem-maior-indice-de-obesidade-nos-ultimos-treze-anos.
  4. https://doi.org/10.1136/bmj.f6340
  5. Dietary intake of saturated fat is not associated with risk of coronary events or mortality in patients with established coronary artery disease. DOI: 10.3945/jn.114.203505

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